EU SOU CAMPO
"... Lembro-me eu, tantas vezes
dos lugares da minha terra,
delicias que o Tempo encerra,
...-O inevitável Progresso...
Mas sempre que quero, regresso,
e é tão bom estar, novamente,
correndo livre p'las verêdas,
entre papoilas e azêdas,
e sarúgas pertinentes...
...Grandes leiras de morangos,
nas belas hortas e vinhas,
as pereiras carregadinhas,
...os pêssegos,...- que tentação !...
Não se usava vedação,
nesses tempos ancestrais...
Um espantalho para os pardais,
e o resto era "para diante"...
Respeitava-se o semelhante,
e assim dava para todos...
Havía comida a rôdos,
...o amor prevalecia...
E nessa extinta alegria,
de crescer provinciano,
Podem passar muitos anos
que este coração não deixa
que eu me afaste, ou que me esqueça
das raízes do meu ser...
E aquele que me conhecer,
fica a saber que eu sou "campo"...
-Passarinho, quando canto,
brincando na fresca erva...
Meu cabelo cheira a estêva,
alecrim e rosmaninho,
No meu peito achei um ninho,
que protejo com rigor...
Em meus olhos salta a cor
do pôr do sol em Agosto...
Nas veias corre-me o "môsto"
Dos cachos de uva grada...
No meu olhar, essa calma
do entardecer na charneca...
No hálito, a brisa fresca,
que vagueia p'los pinhais...
... Assim, com princípios tais,
faz-se um Homem verdadeiro...
A natureza é que o fez,
e hoje é, da cabeça aos pés,
CABEÇÃO de corpo inteiro !..."
Fernando gato (Évora, Maio, 2008)
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