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Em mem�ria do Sr Manuel Alface ( Santa�nho )

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Amigo Manel "Alfaça"

Nunca "deveras" de nascer

Estás vivendo na desgraça

Que não ganhas para comer

Tu és filho da pouca sorte

Vieste ao  mundo sem ventura

Ai! para viveres na censura

Mais valia te vir a morte

Não te vale o teu bom porte

Nem o riso da tua graça

Tudo quanto é mau por ti passa

Ai! por não quereres trabalhar

Tens muita fome a passar

Amigo Manel "Alfaça"

És um pobre mendigando

De miséria " arrodeado "

Andas vestido e calçado

Do que os outros te vão deixando

Muitos de ti estão falando

Desse teu triste viver

Tu não sabes conhecer

O destino da Humanidade

Pois eu digo e é verdade

Nunca devias nascer

Não conheceste o teu pai

Porque eras ainda criança

Foste criado à previdência

Às esmolas de outros mais

Sofres suspiros e ais

E o trabalho não abraças

Tu não vais tomar praça

Aonde vão os outros homens

Passas dias que não comes

Estás vivendo na desgraça

Quando tens algum tostão

Logo o queres ir gastar

O teu destino é fumar

Que não te chega para pão

Os mais não têm obrigação

Das tuas faltas secorrerem

Da vida não queres saber

Vais para casa do taberneiro

E tu só queres é palhaceiro

Que não ganhas para comer.

 

"E tu pensas que não é mais nada"


E tu pensas que não é mais nada

E tu pensas que não é mais nada

Entrei na minha casa

Vi andar uma demanda

A janela com a varanda

O "licate" com a "tanaza"

Do lume salta uma brasa

Num tição dá uma bofetada

Salta a cinza muito zangada

Zaragata com a "chuminei"

Diz-lhe o fumo assim é que "éi"

E tu pensas que não é mais nada

Também salta o tabuleiro

Para o meio da casa a gritar

E o caixão não se quis ficar

Nem se deu por prisioneiro

Salta o mocho cadeireiro

Deu muita sova e pancada

Salta-me a "escloteira" rachada

Aos murros a uma panela

Salta-se o cântaro atrás dela

Tu pensas que não é mais nada

Tu pensas que não é mais nada.


" A Menina dos Limões"



Ponha aqui a canastrinha

Para ver se traz repolhos

E o que a menina aí traz

São limões de encher o olho

Os nabos neste tempo

Precisam de muito molho

 

Aonde é que vê os limões

É coisa que não trago à venda

É uma fruta muita azeda

Não os quero cá na tenda

Se os trago às vezes na praça

É só para quem "mos" encomenda

 

Eu bem vejo dois limões

Que estão bem crescidos

E julgo bem saber

Que de árvore não "escolhidos"

O que eu sei de certeza

Ainda não foram espremidos

 
O senhor compra se quer

Hortaliça se lhe agrada

Tenho fregueses à espera

E não posso estar parada

Limões não trago "nim" vendo

"Nim" da teta tomo nada

Não se esteja a escandalizar

Porque "éi" uma pombinha sem fel

Eu não compro hortaliça

Porque como num hotel

O que a menina aí traz

São limões que me sabem a mel

Porque é que me demorou

Se nada me queria comprar?

Pobre de quem anda na rua

E ter estes tipos de aturar

Pensa que eu não tenho

Outra vida a governar?

Se eu a demorei

Foi por algum motivo

Olhe lá minha menina

A minha ideia não conhece

Não deve estar escandalizada

Por palavras que eu dissesse

 
Nem só o palavreado

Faz fé na gente

Faz pouco de mim

Hei-de estar muito contente

Quando o senhor me chamou

Julgando ser mais indecente?

 
Já não sou hortaliceira

Já não tenho aflições

Ateimou sempre venceu

Pode chupar os limões

Ateimou sempre venceu

Pode chupar os limões.


" Pai Malvado"


Foi na Póvoa da Atalaia

No concelho do Fundão

Um exemplo aconteceu

Que fez tremer o coração

Foi um pai malvado

Que neste exemplo caiu

Sua filha seduziu

Fez a desgraça chegar

Muitas vezes se há-de envergonhar

Ao aparecer aonde os outros vão

Ver o seu pai numa prisão

Por ele ser causador

Fez um exemplo de horror

Chamado paixão

Fez um exemplo de horror

Chamado paixão.


 
"A Menina Rosinha"



Bom dia menina Rosinha

Andas hoje a passear

Engana-se senhor Bernardo

Vou p´ra loja trabalhar

Trabalhas na costureira

Pouco poderás ganhar

Não sou como o senhor

Que anda sempre a vadiar

Assim me insultas Rosinha

Assim me chamas depenado

Fazia uma bonita figura

Se estivesse a teu lado

Até fazia um sino

Com o dinheiro que tenho ganhado

Tem ganhado muito dinheiro

Mas hoje não tem nenhum

Para que queria ao pé de mim

Esse nariz de peru?

O seu dinheiro não tem valor

Meta as notas no cu.


Poema Incompleto


... Itália é uma serpente

Leopardo a Inglaterra

A Áustria camelo indolente

Bélgica a gente a conhece

Porque aos cordeiros se apega

Com a lã da Suíça e Grécia

Segue a Suécia e a Noruega

Dinamarca é...          (som imperceptível)

Finlândia é a cabra fatal

Prefere ser assim espingarda

E o cão de guarda é Portugal

E o cão de guarda é Portugal.


 
Poema Incompleto

... de coçar toda se arranha

da sarna apoquentadora

António de Matos era feitor

Como faço isto sem falta

É uma vergonha p´ra malta

Ter de para com a lavoura

Ai!, por ser bom jogador

Quero contigo jogar

Dou-te os trunfos de valor

E dei-te o jogo a ganhar

Bato cartas e embaralhar

Ó parceiro toma cuidado

Antes que não possas ganhar

Deixa o jogo empatado

Eu é que sou o actor

Sou o primeiro a mandar

Manajeiro para apreciar

Esta obra de valor

Rosil para pregador

António Pires para sacristão

Para... o João Feijão

E o Mira para as galinhas

Para a cadeia o Pinguinhas

E viva o Rancho do meu patrão

Zé Aires para jogador

João Duarte para cesteiro

O Barbosa para comer

Gigante pernas para correr

E viva o rancho do meu patrão

E viva o rancho do meu patrão

E agora que vou cantar

E deixa-me agora dizer

Como é que hei-de fazer

Que não vejo os outros a miar?


"Quadras Soltas"


Ai!, senhor sou aleijado

tenham de mim "compiedade"

Não ando senão com os "péis"

Isto é que "éi" infelicidade.

Ai!, ninhos, ninhos gosto tanto

Dos ver entre ramalhos

É o meu maior encanto

Um dia achei um tão delicado.

Para teus ossos encerrar

Eu hei-de fazer um jazigo

Mesmo sem ter contas contigo

Sempre para ti hei-de trabalhar.

 
Ó meu rico passarinho

Por cima de um "alvoredo"

Ando muito caladinho

Não descubro os meus segredos.

Ó amor se fores à missa

Põe-te em jeitos que eu te veja

Não faças andar os meus olhos

Em leilão pela igreja.

Fui à fonte "bober" água

Encontrei-me com Isabel

Caiu-me uma nódoa nas calças

E o meu nome é Manuel.

Junto à fonte há "namoriscos"

Ao domingo de manhã

Veste a gente o fato rico

Vai à missa vê mais cem.

Em geral ou sociedade

Tudo isto vai no costume

Tenho os joelhos queimados

De assar batatas ao lume.

(Ó Maria, dá cá a borracha)


"O Meu Amor É Maria"

Eu venho da Malarranha

De cabeço em cabeço

Vejo tanta cara estranha

Retratos que não conheço

A minha terra é Leiria

Aonde se faz o papel

O meu amor é Maria

E o meu nome Manuel

A Minha terra é Leiria

Aonde se faz o papel.

(Ó Maria, traz lá a escada)

(Isto é assim mesmo, como eu te "tou" a dizer é que "éi")

(Ó Maria, traz lá a candeeira)


"O Sono do Inocente"

Eu entrei no cemitério

Da meia-noite à uma hora

Fui visitar a tua campa

O meu coração por ti chora

O meu corpo se arrepiava

Minha boca dava ais

De ouvir palavras mortais

Sem saber quem me falava

Era o meu bem que ali estava

"dibaixo" da terra dura

"Alevantei-me" fui à "précura"

Para ver se era algum vivente

Vejo deitado um inocente

Em cima da sepultura

Vejo deitado um inocente

Em cima da sepultura

Eu entrei no cemitério

O pobre menino dormia

Acompanhava a sua mãe

Que "dibaixo" da campa jazia

Não há quem possa descrever

Esta mágoa de paixão

E até corta o coração

Nisto que vou "a dizer"

Vejo o meu corpo a tremer

Numa noite bem escura

Vejo ao longe uma figura

Fui ver se era algum vivente

Vejo deitado o inocente

Em cima da sepultura

Vejo deitado o inocente

Em cima da sepultura.


"Quadra solta"

Olha, não sei como é que hei-de dizer

Vou eu agora cantar

Pois, olha como eu me chamo

Olha, não sei como é que hei-de estar.


          "É Assim Lisboa"

Telhados velhinhos

e a roupa secar,

escadinhas subindo,

janelas florindo e o

Tejo a cantar.

Varina que passa

e fresca apregoa

e o "soli" que adora

e um fado que chora,

"ei" assim Lisboa.

Diz-se uma graça na Guia

corre Alfama, Mouraria,

chega logo à Madragoa,

lá vai ela de boca em boca

correndo os bairros de Lisboa,

é assim a Madragoa.

Telhados velhinhos...

e "ei" assim mesmo...

Telhados velhinhos e "ei" assim irmão...

  
Versos gravados em Junho de 1976

FIM

Em Memória:

Caso vejam interesse na sua publicação, quero dizer que nem eu e, possivelmente, ninguém pretende achincalhar o Manel Alfaçe, mas, pelo contrário, apenas desejamos perpetuar a sua memória.

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É assim Lisboa
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