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Coisas De Cabe��o (JVP)

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INTRODUÇÃO

Cabeção Não é Cidade

HOMENAGEM A MEUS PAIS

ALCUNHAS E APELIDOS

OS NOSSOS SITIOS

"TRÊS MENINAS E UM IRMÃO"

OS RAPAZES DAS SORTES

A FESTA DOS PASSOS

HISTORIAS E RECORDAÇÕES

" PERIPÉCIA "

COMIDAS TRADICIONAIS

NOTA

 

INTRODUÇÃO
 
Que esta obra seja herança
P'ra quem vem depois de nós
Recordar nossos avós
É uma sagrada lembrança
Neste mundo de mudança
Como bons alentejanos
Não esqueçam os seres humanos
São os votos d'um " rapaz"
Que nasceu no " Volta-a-trás "
Há sessenta e tantos anos.
 

Cabeção Não é Cidade

Cabeção não é cidade
É uma vila diferente
Com muitos anos de idade
Faz inveja a muita gente
A vila está situada
Entre vinhas e olivais
Lindas hortas e pinhais
Toda de branco caiada
Com sua torre aprumada
Que eu recordo com saudade
Os tempos da mocidade
Onde eu brinquei na infância
P'ra mim tem muita importância
Cabeção não é cidade
Tem gente boa e honrada
Que trata bem toda a gente
Também tem boa aguardente
Da rija e perfumada
Há nesta terra afamada
Coisas que são raridade
Além da honestidade
Tem belos lumes de azinho
E talhas do melhor vinho
Com muitos anos de idade
Quando a vou lá visitar
Chego ao Domingos Cortiço
Entra em mim qualquer feitiço
Que não posso explicar
Se o sino está a tocar
Com o seu toque dolente
É a saudade contente
Que entra no meu coração
Talvez por esta razão
É uma vila diferente
Quem nesta terra passar
Eu disso tenho a certeza
Devido á sua beleza
Há-de por força voltar
Ao menos p'ra recordar
E dizer naturalmente
É uma vila diferente
É uma terra " à maneira"
Com as migas d' A Palmeira
Faz inveja a muita gente

 

HOMENAGEM A MEUS PAIS

Nasci pobre e "empenhado"
Com os meus progenitores
Vim logo a dever favores
P'la vida me terem dado
Com carinho fui criado
Quando vi a luz do dia
Por encanto ou por magia
Sendo pobre fiquei rico
Por ter um pai que era Chico
E a "'nha" mãe que era Maria.

 

Alcunhas e Apelidos

Aqui nestas linhas vão
Alcunhas e apelidos
Dos vivos e falecidos
Da Vila de Cabeção
Com toda a consideração
E respeito que merecem
Porque há nomes que não esquecem
E que devem ser lembrados
Vê - los aqui misturados
Até iguais nos parecem.

Rolas, Milheiras, Pardais
Cotovias, Gaviões
Há cá muitas gerações
Com os filhos e os pais
Com estes nomes herdados
Passarinhos assustados
Com os Ratos e Ratões
Há Borregos, Ruivos e Rosados.

Courinhas, Litros, Calados
Alfaces, Favas, Feijões
Também há muitos Bailões
E Canelas Doutorados
Há Chitas em vários lados
Carreiras por toda a parte
Também há muito Duarte
E ainda alguns Conichos
Carpelhos, Sapos e Bichos
Não se vê em qualquer parte.

Calixtos, Pinas, Malhões
Pintos e Arrepiados
Nomes que hão-de ser lembrados
Como são os Barranhões
Condes, Bécos e Gánhões
Aleixos e Carrachichas
Alfuredas e Conichas
Motas, Pessas e Prudêncios
Há Gaitas e Florêncios
Lagartos e Lagartixas.

Já cá houve um Cagarrana
Que Deus o tenha em descanso
Até o padre era Manso
Também cá temos Choupana
Houve o meu primo Cagana
Ramalhos, Ramos, Raminhos
Bainetas, Crocas, Mansinhos
Manaias, Cunhas, Catrouchos
Galegos, Miras e Mochos
Há Penetras e Rainhos.

Borreichos e Cravidões
Ainda temos bastantes
Muito menos do que dantes
Vão morrendo as gerações
O frio não escolhe estações
Há Velhotes e Tájolas
E Rufinos e Carolas
Também há se não me engano.

Ainda temos Pinguinhas
Nesta terra de bons vinhos
Vinagres e Moleirinhos
Fizeram boas farinhas
Torrados e Torradinhas
Com "torrão" de maravilhas
Que vem de mães e de filhas
Ou dos pais ou dos avós
Ainda há Cananós
Calhaus, Cristetas, Guerrilhas.

Nesta vila de mistérios
Onde também há Dóbigos
Também há um Espeta - figos
Que é da raça dos Valérios
Muitos estão nos cemitérios
Ou aqui ou noutras partes
Serranos e Alfaiates
Há Rabichos e Cachuchos
Sem ter quartel há Galuchos
Carronhas, Pilas e Prates.

Mosteias, Russos, Silvérios
Também há muito Batata
E um Cabeça-de-Pata
Que é um dos casos mais sérios
Cortiços, Veredas, Quitérios
Arraiéis e Machadinhas
Leandros e Cabecinhas
Vitorionos e Guerreiros
Bárrões, Teles e Salgueiros
Cabaços, Pires e Faquinhas.

O Patála e o Furão
O Manelim, o Mejinhas
Cartaxos e Pázadinhas
Laradas, Melros, Carão
Um cantor que era Falcão
Pelintras, Canas e Putos
Eram espertos e astutos
Tinham boa condição
Em qualquer ocasião
Não eram fracos nem brutos.

Dordio, Matola, Clemente
Morreu o Manél da vinha
E o Chico da Hortinha
O Cumpeixe e o Vicente
Um Feliz e um Dormente
Também há o Gasparinho
E houve muito Godinho
Mas só um é que era rico
Já me esquecia do Chico
E d'Amélia do Montinho.

Já cá tivemos os Louras
Artistas da concertina
A Pombala e a Balbina
Senhorinhas e senhoras
O Margarido e os Estouras
Batata-Doce e Silveira
Manél Zé-Quinta-Feira
Também houve a Mari'Estina
A pomba e a Carolina
Que casou c'o Cafeteira.

Em tempos houve Charrelas
Qu'inda eram meus parentes
Já morreu o Simão Dentes
Mas há Dimas e Varelas
Até havia Grandelas
O Varandas e o Rosil
Camioneta e Parrachil
O Tarefa e Mâncio Brás
Nos meus tempos de rapaz
O J'aquim de Montargil
Também temos cá os Gens
Um deles até é Tinto
Um Curto que era Jacinto
E Barbosas e Estevens
E estamos de parabens
Por ter tido um Papa-Vinho
Que não bebia sózinho
E foi p'ra outra cidade
Esperança e Felicidade
Também há neste caminho.

É uma terra importante
Graças a Deus Nazareno
Ter um Grande e um Pequeno
Um anão e um Gigante
S'isto não fôsse bastante
Ainda há muito coelho
Como não hei-de estar velho
Já lá está o Luis Mâncio
O Pôpa e o Bundâncio
O Latas e o Traguelho.

Badôfos, Lérias e Rentes
Farungas, Bogas, Casmarras
Terra de coisas tão raras
Com estes nomes diferentes
E quási todos são parentes
Mistura-se a geração
Aqui deixo a gratidão
Ao herói que era Mouquinho
E ao mestre João Godinho
Um poeta de eleição.

Há Gatos por todo o lado
Catapirras, Tabaréus
Chinelos e Calhabéus
Com Guitarras sem ter fado
Como o mundo está mudado
A coisa vai a estar preta
É verdade, não é trêta
Digo com muita emoção
Muitos nomes que aqui estão
Estão na Quinta do Larreta.
Do Renato e do Justino
Não há ninguém que se queixe
Do Barriguinha de peixe
E mesmo do Laurentino
Quando eu era pequenino
Conheci a ti Inácia
A Berta e a Bonifácia
A Sapa e a Matelinhas
Temos o rei da mézinhas
O Antonio João da Farmácia.

Se do trigo se faz pão
E do frio se faz a nevo
O bigode de Pé - Leve
Dava m'essa sensação
Dignos de admiração
E dentro do mesmo tema
Vejam lá este dilema
O nosso amigo Teodoro
Ainda foi ao sonoro
C'o António do Cinema.

Houve o Zé Pedro da Estina
E o Chico da Cardosa
E o António da Rosa
Que era o pai da Sabina
Morava cá a Regina
O Balricha e o Rolheiro
E houve um qu'era barbeiro
Foi o meu primo Zé Vaz
Não posso deixar p'ra trás
O Hildebrando Caeiro.

Terra de muitos moinhos
Um moleiro qu'era Tostão
Havia o Chico Alpalhão
O Tábêra e o Dorinhos
O Troca e os Morgadinhos
E o Domingos Albardeiro
Também cá esteve o Rasteiro
Que não era má pessoa
E a mari' de Lisboa
Que morava no Ribeiro

A Ana Velha dos bolos
Umbelino e Ferrador
E também o Zé Leonor
Homens que não eram tolos
O Caçurra e os Carôlos
O Canhoto e o Zarôlho
O Magala e o Piolho
E houve um que já morreu
Bastante vinho bebeu
O Zé Maria Má-Olho.

O Manél Arrependido
O Potrinha e o Barrula
Também houve o Zé da Mula
Já há muito falecido
Assim não é conhecido
Nem tampouco os Farrajolas
São cordas d'outras violas
Que n'outros tempos havia
Como a Mari' de Pavia
E o Arranca Cacholas.

Há Cardosas e Cardoso
Bernards e Alziras
Qualquer um "prega" mentiras
Mas há só um Mentiroso
Terra de muito manhoso
Mas não fazem desacatos
Tudo gente de bons tratos
Já lá vai o Possidónio
E o nosso Manél António
Qu'era Borreicho e era Matos.

Conheci o Arranhado
Um maltês d'antigamente
Assustava toda a gente
Quando estava embriagado
Também deve ser lembrado
O Banha e o Carapeta
O Corisco e o Zé Baineta
E uma coisa fantástica
Temos a Mari' Escolástica
Qu'era filha do Marreta.
Inda guardo na memória
Como era a Mari' Flor
E não é nehum favor
Meter aqui nesta história
O Manél da "Zedória"
E o meu primo Simão Mocho
Já lá vai o Zé Rabocho
E também há muitos anos
Havia cá dois Caetanos
Era um rico e um coxo.

Eufrásias e Carlotas
Rosárias e Albertinas
Luzías e Ludovinas
E houve a ti Mari' Botas
Inda se vêem as Motas
Com estas ninguém se zanga
E já deu a "trangamanga"
A um Mota amigo meu
E o mesmo aconteceu
À ti J'aquina Fandanga

Havia o ti Simãozinho
O Ganhapo e o Gabriel
O meu tio Ezequiel
E um guarda qu'era Pretinho
Já seguiram seu caminho
Mas temos cá o Pernica
O Claro e o Manica
Os Farrobas e Carrilhos
Vão-se os pais ficam os filhos
C'o tempo ninguém cá fica.

Houve tendeiros e ciganos
E também Anacletos
Lã-Brancas e Anicetos
Hoje temos os Paranos
E morreu há muitos anos
O velho Carpinteirinho
E a ti Mari' do Moinho
Os anos não sei ao certo
Nasceu cá o Felisberto
Qu'era um belo rapazinho.

Não há mina e há Mineiro
Mas há Rochas nesta terra
Houve o Mauricio da Guerra
Que deu o nome ao Terreiro
E um Almeida sapateiro
E o Zé d'Ameixeira
Lopes, Barata e Vieira
Isto era gente mais fina
E o Simão da Umbelina
Morava ao pé do Teixeira.

Veio p'ra cá o Nasamonte
Que noutra banda morava
E a velha Luzia Brava
Também morava no monte
E quem vivia defronte
Do Firmino era o Gadanha
Havia gente com manha
Mas não era o ti Libório
Nem Moreira nem "Inório"
Nem nenhum da Malaranha.

A Galinha tem muela
A uva tem o engaço
Nós temos o Estradalhaço
O Bule e o Brezundela
O Aurélio e a Gabriela
O Bem-Haja e o Monteiro
Matias que foi padeiro
Era o pai da Guilhermina
Há Rosas e Rosalina
O Dádaia e o Caseiro.

Esta história custa a crer
A d'um homem certo dia
Como não se decidia
Que nome havia de ser
"Prantou-lhe" "Zé - Até - Ver"
E como isto não é pouco
Também cá houve o Batouco
Casado com a Godinha
E às vezes também cá vinha
Um de Mora qu' era Mouco.
Borda d'Águas, Cab'delas
E Reguengos e Mauricios
Cada um nos seus ofícios
Vidas simples e singelas
Mas eram rudes e belas
E dessas eu não me queixo
Outros nomes aqui deixo
Como seja o Lagreminhas
A Cáua e as Lazarinhas
E o Chico Palólêcho.

Há um Santo sem altar
Nesta terra de Virtude
Deus me dê muita saúde
Para os poder recordar
E agora estou-me a lembrar
Do Cheira e do Pendurado
Do Brito e do Encarnado
Inda me falta o Saldanha
A ti Teresa Tanganha
E o Chico Remelgado.

Houve Principe e Rainha
E também a Zefa Rita
A Libania e a Canita
A ti Ana Pedreirinha
A Vicencia e a Pancinha
A Palmira e a Gánhôa
A Bernarda e a Létôa
Tivemos a ti Eulália
A Irene e a Cidália
Foram morar p'ra Lisboa.

Cabeção é um jardim
Onde as mulheres são as flores
As novas são uns amores
As velhas assim... assim
Isto nunca mais tem fim
Por todo o lado há Marias
As mães, as filhas, as tias
Há cá muitas Mari' Rosas
Bonitas e carunchosas
E tambem Rosas Marias.

Um Lourenço taberneiro
Anastácios e Correias
Andou por muitas aldeias
O Henriques Pinceleiro
Houve o Zé Maria Oleiro
O Lourinho e o Badalo
Nem só dos velhos eu falo
Temos cá o Zé da quinta
A "Polónia" e a Jacinta
Mas não temos o Gonçalo.

A Rata e a Ratinha
A "Péxôta" e a Cagoila
E também o Zé Migoila
A Bia e a Anazinha
Todos os anos cá vinha
O Domingos Lagareiro
Desde Novembro a Fevereiro
Vinha cá fazer azeite
Rosa Vaz vendia leite
Mâncio Bádio cozinheiro.

Também temos Oliveiras
Mas nunca dão azeitona
Houve a Bernarda Carona
As Valérias e Caeiras
Nunes, Marques e Nogueiras
Um "Pimeiro cabo" sem farda
Malteza e Felizarda
O "Pelicorpe" e o Prudêncio
São do tempo do "Gádencio"
E da Rosa do Zé Guarda.

Temos a Chica "Lidóra"
A Rubia e a "Marçalina"
Havia a Rosa Rufina
A Vitala e a Pintora
Mas ouçam lá esta agora
Tenho a impressão que não érro
Não há ovelha sem berro
Mas há condes sem Condeças
Havia o Zé das Cabeças
E o Cabecinha de Ferro.
Afonsos, Freires e Faustinos
Não me esqueci das Emilias
Havia grandes familias
Que seguiram seus destinos
Oficios "grossos" e "finos"
Há doutores e engenheiros
Misturados com pedreiros
E gente com outros dotes
Havia o "Talha-Capotes"
E há Bichos carpinteiros.

Conheci muito velhinho
Não me perguntem a data
Havia a Rosa Regata
E o mestre Zé Ramalhinho
Que era alfaiate e baixinho
E a ti J'aquina Ramalha
Se a memória não me falha
Estava cá a Carvalhinha
A Jóia e a Boguinha
E o Chico da Carvalha.

Houve a ti Ana Pezera
Qu'inda morou na Barroca
Na vila estava a Batoca
O Roque na Asseiceira
João Correia na Pedreira
Foi pr'ó Montijo o Magala
E um caso qu'inda se fala
Duas aves tão diferentes
Casaram sem ser parentes
O Rola com a Pardala.

Rodrigues e Araújos
Andrés e Florentinas
Caracolas, Cesaltinas
Também tivemos marujos
Por falar nos "ditos-cujos"
Nasceu cá um marinheiro
Que estudava o ano inteiro
Rachava lenha nas férias
Também tem as suas lérias
O João da Rosa... engenheiro.

Os Abrantes aqui estão
Um deles é cavaleiro
E o ti J'aquim Cabreiro
Vivia no Maranhão
Do velho João Rabadão
Muita história se dizia
E um certo doutor havia
Que belos conselhos dava
Quando alguém o consultava
Lá na horta d'Aravia.

António dos Porcos era
Negociante de gado
Muitos porcos do montado
Aquela "alma" vendera
Fôsse inverno ou primavera
Sempre na burra castiça
Aqui lhe presto justiça
A vida também tem trocos
Morreu o António dos Porcos
Mas temos cá o Linguiça.

Com saudades vou sorrindo
Ao recordar tanta gente
Figuras d'antigamente
E outras que vão surgindo
Tivemos o Zé Relindo
Qu'era um grande mariola
Temos cá o João Tájola
E o nosso amigo Beléla
"Levou poucas" do Varela
Nos nossos tempos de escola.

Galizas, Bilros, Palhais
Papa-Ratos, Peia - Cucos
Não é terra de malucos
Nem são homens anormais
Aos outros eram iguais
Desde que eram rapazinhos
Pirralhas e Tatarinhos
Carumbas, Repas e Piscos
Lamarosas e Roviscos
E o Chico dos Pázinhos.

Tivemos o Bernardino
Cabeleireiro de animais
O Arromba e o Zé Pais
O Manél Alexandrino
O Velez e o Cat'rino
Nomes que hão-de ser lembrados
Mas um dos mais afamados
Luis Borreicho Godinho
Não podia ver o vinho
Bebia d'olhos fechados.

Havia um homem de bem
Por todos considerado
Há muito já foi chamado
O Luis Guarda que Deus tem
E o nosso Tita também
Deixou viuva a Jacinta
Por mais tristezas que eu sinta
Ainda sinto emoção
Pela morte do Bailão
Filho da J'aquina Pinta.

Nunca se quis ir embora
Um ilustre personagem
Que merece uma homenagem
De Cabeção e de Mora
Sempre pronto a qualquer hora
Com seu saber e trabalho
Já tem cabelo grisalho
Eu homenagem lhe faço
Aqui vai um grande abraço
Ao nosso amigo Carvalho.

Um Martins que foi pedreiro
O que havia de arranjar
Deu - me a filha p'ra casar
E eu deixei de ser solteiro
Tinha um café no Ribeiro
Fomos amigos correctos
Debaixo dos mesmos tectos
Não se metia em sarilhos
Era o avô dos meus filhos
E o bisavô dos meus netos.

Ainda foi serrador
Mas deixou-se de pinhais
Tinha outros ideais
Que alcançou com seu valor
Rigoroso e cumpridor
No negócio foi excepção
Homem de grande visão
Sempre pronto a ajudar
Deus o tenha em bom lugar
Manual Vaz Cravidão

Agradeço a três doutores
Em nome do nosso povo
Desde o mais velho ao mais novo
Todos devemos favores
P'ra estes grandes senhores
Eu venho em frases singelas
Exaltar as coisas belas
Da sua nobre missão
Três médicos de excepção
Passos, Guedes e Canelas.

E os nossos emigrantes
Que andam a ganhar a vida
Tantas vezes mal vivida
Lá nessas terras distantes
Nos momentos importantes
Desta terra de nascença
Queremos a vossa presença
No descanso ou nos ofícios
E em paga dos sacrificios
Deus lhe dê a recompensa.

Terra de trabalhadores
Nas diversas profissões
Empregados e patrões
Dos serventes aos doutores
A todos presto louvores
Com o devido respeito
Mesmo sem força nem geito
Quero abraçá-los a todos
Que tenham saúde "a rôdos"
Por tudo o que têm feito.

Deixo um recado ao Inês
Nosso digno Presidente
P'ra dizer que estou contente
Com aquilo que já fez
E quando chegar a vez
De defender esta gente
Não falte água nem "corrente"
Nem as ruas bem tratadas
Bem Limpas e asseadas
Cabeção tem d'ir p'rá frente.

Já corri a vila inteira
Andei " à cata " de gente
Com algum nome diferente
Lá na sua parenteira
E assim desta maneira
Não sei se fiz bem ou mal
Mas o meu espanto foi tal
Com os nomes que aqui estão
Eu chegei à conclusão
Que acabei c'o " pessoal " .

Senhora da Madre-Deus
Peço-te um grande favor
Pede a Deus Nosso Senhor
Por estes amigos meus
E um Cordeiro que fala em Deus
Merece consideração
O padre de Cabeção
Qu' encomenda os nossos mortos
Casa uns, baptiza outros
Tem uma bela missão

Peço p'ra ser desculpado
Se algum de vós ofendi
Com aquilo que escrevi
Não fui mal intencionado
Assim fica registado
Desta forma deslavada
P'ra que possa ser lembrada
E eu não tenho receios
Os nomes podem ser feios
Mas é tudo gente honrada.

 

Os Nossos Sitios

Vila dos 4 terreiros
Estrada Nova p'ra quem passa
Temos a Junta na Praça
Pena Última e Arneiros
E p'ra lembrar aos herdeiros
Volta-a-Trás e o Telheiro
Eira do quarto e o Ribeiro
O Adro é o mais belo
Também temos um castelo
Sem Cabeção ser guerreiro.

 

"TRÊS MENINAS E UM IRMÃO"
 
Não sei quem as baptizou
Mora, Brotas e Pavia
Tambem um Rapaz havia
E Cabeção se chamou
Mas algém o desterrou
E o pobre do Cabeção
Por ser muito " alvandérão "
Foi posto nestas paragens
Está cercado de barragens
Montargil e Maranhão.
 

OS RAPAZES DAS SORTES

Rapazes da mesma idade
Todos juntos a cantar
No dia das inspecções
P'ró serviço militar.
É pena estar-se a perder
Esta antiga tradição
Das "sortes" em Cabeção
Eu vou tentar descrever
P'ra que fiquem a saber
Como era a mocidade
Que a muitos deixou saudade
Aqueles dias vividos
Eram todos conhecidos
Rapazes da mesma idade.
As carroças enfeitadas
Do Pôpa e do Tabaréu
Foguetes riscando o céu
Vozes roucas e cansadas
E muitas faces marcadas
Com anseios e emoções
Não paravam as canções
E muito antes da hora
Lá iam todos p'ra Mora
No dia das inspecções.
Contratavam tocadores
Naqueles dias de festa
Filhos de gente modesta
Com os filhos dos senhores
Brincalhões, respeitadodores
Alegres sempre a "mangar"
Passavam mais devagar
Na rua das namoradas
Tinham boas "patuscadas"
Todos juntos a cantar.
Por muita gente aguardados
Traziam fitas ao vento
Quem tinha branco era isento
A côr verde eram "esperados"
Por todos acarinhados
Com dichotes a brincar
Também vi mães a chorar
Ao verem o "encarnado"
O filho estava apurado
P'ró serviço militar.

 

A FESTA DOS PASSOS
 
Temos costumes sagrados
Há mais de duzentos anos
Não são hábitos profanos
Dos nossos antepassados
Vem gente de muitos lados
No dia da procissão
Dos Passos em Cabeção
Toda a gente vibra e sente
Mesmo que não seja crente
Tem respeito e emoção.
 

HISTORIAS E RECORDAÇÕES

Tanta vez fui ao Gameiro
Á Barroca e Chaminé
A Mora ia - se a pé
Sem transportes nem dinheiro
Na Varge da Velha um barqueiro
O Vitorino coitado
Passava p'ró outro lado
Porque a velha ligação
De "calhas" sem corrimão
Era um perigo danado.

Estive nos Pégos Ratinhos
No Vale bispo e Malhadas
E algumas horas passadas
Também fui ver os Moinhos
Mas já não vi Moleirinhos
Não há moleiros nem há nada
E dali fui p'rá Covada
Andei sem eira nem beira
Fui parar à Asseisseira
Estava quási abandonada.

Já conheço Momporcão
O Chamusco e Chamusquinho
O Mózêro e S.Martinho
No Zêbro estive um serão
E em certa ocasião
Era um dia de frio e chôcho
Um cauteleiro que era coxo
Disse-me onde era o Conqueiro
Enganou-se o cauteleiro
Fui parar aos Foros do Mocho.

Passei na Gonçala um dia
E fui à palha ao Pequito
Também deve ficar escrito
Nunca fui à Freguesia
Estou farto d'ir a Pavia
Ao Reguengo e à Tramagueira
Com o meu pai fiz sementeira
Negócio pouco rendoso
Tive milho em Carvalhoso
E trigo na Ameixeira

Precisei d'indicações
Um dia no Maranhão
Perguntei a um ganhão
De samarra e de safões
O caminho p'ra Camões
Serrado e Monte da Vinha
Mas por pouca sorte minha
Entre a Ordem e Pardais
Partiram-se os "atafais"
Dum burro que o meu pai tinha.

Há uma "remessa" d'anos
Talves algumas dezenas
Que eu já não vou às Donzenas
Nem ao Monte dos Sarranos
Têm saído fulanos
P'ra outras vidas errantes
Já nada é como dantes
Só ouço queixas e mágoas
E até nas Entre - Águas
As lamúrias são constantes.

Para ver boa cortiça
Fui um dia à Charneca
E estive na Marateca
Mas deu-me lá a preguiça
Com pão caseiro e linguiça
Sentei-me ao pé dum pastor
Barrigudo e falador
Que tinha o gado "ao calmeiro"
Fui cear a Gil Terreiro
Sem dinheiro nem fiador.

Eu tenho d'ir às Galveias
Parece que há lá bom vinho
E se calhar em caminho
Ainda vou às Mosteias
Nos montes e nas aldeias
Tratam bem quem por lá passa
Há uma aldeia com graça
Vem muita gente de for a
Porque nessa aldeia mora
A Senhora d'Arrabaça.

Também lá vou qualquer dia
A Margem e à Pedreira
Aos Ulheiros e à Caeira
E outra que me esquecia
Tenho d'ir à Ilha Fria
Mesmo sem ser convidado
Quero saber como anda o gado
Gosto de matar saudades
De todas estas herdades
"Coisas" do nosso passado.

Searas de trigo louro
Com que se faz a farinha
Gosto d'ir à Figueirinha
Já estive no Bebedouro
Nas Águias há um tesouro
A Torre altiva e diferente
Um monumento imponente
Deve ter a sua glória
É um pedaço de história
Passa por lá muita gente.

Armou-se uma trovoada
Vinha eu da Malarranha
A confusão foi tamanha
Eu perdi o Norte à estrada
Com a carroça "engatada"
Eu vi-me num grande enleio
O Matalote ia cheio
Eu nem sei por, onde andei
Só me lembro que cheguei
À Casa Branca do Meio.

P'ra falar ao "manageiro"
Estive há anos na Tourega
Mesmo à hora da "enrega"
Antes d'ir p'ró Vimieiro
C'o Faquinha sardinheiro
Grande amigo da "vinhaça"
Fui um dia fazer praça
Comemos em Arraiolos
Migas de rins e miolos
E uns copos de "murraça".

Nunca fui à Grácia Vaz
Nem a Santa Margarida
Há muita coisa esquecida
Que ouvi falar em rapaz
Mas há pouco tempo atrás
Com grande surpresa minha
Levaram-me à Igreginha
Nunca tinha estado ali
E ao pé d'Évora também vi
A Graça que o Divor tinha.

Já vi a Feira da Ponte
Por ser da Ponte se chama
Montargil ganhou fama
Com a barragem defronte
Também estive em Évoramonte
Avis e Alter do Chão
E há dias por diversão
Fui a Sousel e ao Cano
E se cá estiver p'ró ano
Vou a Évora ao São João

Monte Grande e "Ulheirões"
Onde toda a gente vinha
Pégo Penedo e Pequinha
De gratas recordações
E p'ra quem tem devoções
Há um monte apropriado
Ao longe, do outro lado
No alto do azinhal
A Madre Deus é sinal
Do presente e do passado.

" PERIPÉCIA "

Lá das bandas do Montinho
Vinha eu numa "atafona"
Com dois sacos de azeitona
Em cima do meu burrinho
Correu - me mal o caminho
Deu - se um caso singular
Por pouca sorte ou azar
Mesmo dentro dum riacho
Eu caí do burro " a baixo "
Da forma que vou contar.

O animal assustou-se
Na vala de Vale de Frades
P'ra fazer estas maldades
Julgou que outro burro fôsse
Era "pinote" e era "coice"
Parecia um filme mudo
Ou brincadeira d'Entrudo
Lá vai o João de "pantanas"
Com todas as "traquitanas"
Cangalhas albarda e tudo. 
 

COMIDAS TRADICIONAIS
   
"Catacuzes" "Cagarrinhas"
"Túberas" com ovos mexidos
São melhor que comprimidos
E as açordas com sardinhas
Com pão de boas farinhas
Em tempos que já lá vão
Mas mantem-se a tradição
Isto só em traços largos
Migas, Miolos e Espargos
E a Sopa de Cação.

Boa Sopa da Panela
Ou a de Feijão com Couve
Estou em crer que nunca houve
Quem dissesse mal dela
Rica linguiça e morcela
Quando a carne era fumada
Uma larga temporada
Dava mais gosto aos Cozidos
E um dos "Pratos" preferidos
Pézinhos de coentrada.

Terra de bom Ensopado
Cachola e Fatias d'alho
E quem se der ao trabalho
Não vê melhor noutro lado
O Lombo de Porco Assado
Temperado com pimentões
Por esta e outras razões
Em vez de comer pescada
Temos Farinheira Assada
Com Salada de Agriões.

As Sardinhas Alimadas
Torresmos e Migas Gatas
Eram comidas baratas
Por muitos apreciadas
Entre as coisas mais faladas
Não posso esquecer o Vinho
Que é o nobre "pergaminho"
E orgulho da nossa gente
Bôlo - Pôdre e Aguardente
E os queijos do Rainho.

"Caldetas" avinagradas
com o peixe da ribeira
E azeitonas de primeira
Pisadas ou retalhadas
E Sardinhas Albardadas
Comida muito castiça
E Merendeiras com linguiça
P' ra petisco não é mau
E há Couve com Bacalhau
P' ra quem gosta de hortaliça.

A sopa com Beldroegas
Com pedacinhos de queijo
É coisa que eu pouco vejo
E os petiscos nas adegas
Por alturas das "transfegas"
Com os quais nunca me zango
E Cabidela de Frango
Com ervilhas de quebrar
E depois p'ra rematar
Temos Brinhóis de Mogango.

Coisas doces muito boas
P'ra contentar os gulosos
Temos cá bolos famosos
P'ra regalo das pessoas
P'los Santos comem-se as Broas
Filhoses pelo Carnaval
Azevias no Natal
Havia bom Torrão Doce
Era bom mas acabou-se
O melhor de Portugal.

NOTA

Quero chamar a atenção
De quem estos versos ler
Eu limitei-me a escrever
E não fiz pontuação
Eu deixo à consideração
De todo e qualquer leitor
Poeta ou declamador
Que os diga como quiser
A forma como os disser
Não ofende o seu autor.
 
 J.V.P.


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