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�Porque n�o se entende o homem como as aves se entenderam� (SPO)

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"PORQUE NÃO SE ENTENDE O HOMEM COMO AS AVES SE ENTENDERAM?"

I

Depois de ter trabalhado
Eu sentei-me a descansar
Eu fiquei tão encantado
De ouvir um merlo a cantar

II

Estava alegre o passarinho
A Primavera chegou
Lá no silvado sózinho
Pois toda a manhã cantou

III

Canta melrinho no campo
É grande a tua alegria
Se não terminas o teu canto
Passarei aqui o dia

IV

Por entre nuvens o sol
E um calor que já se sente
Começo ouvindo um rouxinol
Com o seu canto atraente

V

Pensando ali um momento
E olhando o céu azulinho
Vou ficar aqui mais tempo
Só para te ouvir passarinho

VI

Meu rouxinol és vaidoso
Aqui fico para te ouvir
Teu canto é maravilhoso
Até me fazes dormir

VII

Acordei em sobresalto
Ouvindo as aves cantando
O sol ia tão alto
E uma brisa ia soprando

VIII

Canta canta Linda ave
Até me fazes sorrir
O teu canto é tão suave
Meu peito fazes sentir

IX

O melro se aproximou
Do rouxinol cheio de brio
Nehum deles se poupou
E cantaram ao desafio

X

Diz o melro ao rouxinol
Tu pensas que cantas bem?
Pois eu sei cantar melhor
Como eu não há ninguém

XI

Ó melro escuta-me agora
Que vou cantar com galhardia
Pois eu canto a qualquer hora
Seja de noite o de dia

XII

É verdade que tu levas
Muitas noites a cantar
Tu nem de noite sossegas
Nem me deixas descansar

XIII

Ó melro feio e ruim
És preto como o carvão
Canta aqui ao pé de mim
Perdes logo a ilusão


XIV

Meu rouxinol mandrião
É fraco o teu pensamento
Não cantas senão de verão
E  eu canto todo o tempo

XV

Melro só dizes asneiras
O meu canto é requintado
Eu canto noites inteiras
Nas árvores e nos silvados

XVI

Rouxinol meu companheiro
Eu sempre fui teu amigo
Se pensas que és o primeiro
Tira daí o sentido.

XVII

Melro quero-te abraçar
Nem contigo quero disputa
Quando eu começo a cantar
Pois toda a gente me escuta

XVIII

Rouxinol tu cantas bem
E eu também não canto mal
Somos amigos porém
Cantamos os dois igual

XVIII

Ó meu amigo melrinho
Muito tempo se perdeu
Pois vais fazer o teu ninho
Que eu vou fazer o meu

XX

A uma sombra sentado
As duas aves ouvi
O sol já ia tombado
Até chorei e senti

XXI

Senti pelas aves amor
Senti pelas aves prazer
Senti no peito uma dor
O que senti vou escrever

XXII

Eu puxei da minha pena
Com um sol já sem queimar
Escrevi toda aquela cena
Que das aves pude tirar

XXIIII

Eu vi como as aves comem
Vi como as aves viveram
Porque não se entende o homem
Como as aves se entenderam

XXIV

Nada se via por ali
O sol já não aparecia
Só para ver o que eu vi
Eu passei aqui o dia

XXV

Pelas aves tenho respeito
Pelas aves tudo se faz
Vi-me embora satisfeito
Por ver as aves em paz

Simão Pinto De Oliveira (69 anos)


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