No Alentejo, a política ficou à porta na hora de lembrar uma figura do período do Estado Novo
Texto de Teresa Resende
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Os populares de Cabeção não esquecem o benfeitor da terra, António Lopes Aleixo, e baptizaram uma rua com o seu nome
| A população de uma pequena vila alentejana decidiu homenagear um homem a quem Salazar atribuiu as comendas da Instrução Pública e da Benemerência. «Naqueles tempos não havia nada e ele era a segurança social aqui da terra», recorda Eulália Canelas, organizadora do festejo que se realizou recentemente em Cabeção, uma freguesia do concelho de Mora onde o partido comunista ainda é quem mais ordena.
O homenageado, António Lopes Aleixo, foi um dos lavradores mais ricos da terra, dono de milhares de hectares de sobreirais e searas, e uma das figuras que, ao estilo do Estado Novo, mais contribuiu para o desenvolvimento da vila antes do 25 de Abril. Numa parcela onde possuía uma vinha, conhecida por «Quinta», mandou construir um bairro social com 56 moradias e doou-o à Santa Casa da Misericórdia. No início, isto é, na década de 60, foi difícil arranjar pessoas com possibilidades de pagar rendas de 80, 100 e 130 escudos. Mas, como diz Maria Antónia, «agora já está tudo repeso de não ter vindo para estas casas».
Quem como esta moradora fez um contrato de compra com a Santa Casa, ficou proprietária de uma moradia ao fim de 25 anos. Quem já tinha habitação própria, ou quem não obedecia aos requisitos para a compra de casa, continua arrendatário da instituição de beneficência. Tanto uns, como outros estão «felicíssimos do sítio», por isso, acordaram homenagear o benfeitor colocando a uma das ruas do bairro o nome de Comendador António Lopes Aleixo. Com este acto, agradecem as casas, a escola primária, a cantina, o lar, o miradouro, o pão, o azeite, a lã, as pinhas, a cortiça, os medicamentos, os bolos de casamento... que dele receberam.
São raras as pessoas do Bairro João Lopes Aleixo — o nome do pai — que não têm histórias sobre a generosidade do cabeçanense. Eulália recorda que quando lhe rebentou a bolsa amniótica, a oito dias do final da gravidez, ele mandou um motorista a Évora para que trouxesse a parteira que tinha assistido ao nascimento dos filhos. «Não sei quanto foi, mas sei que não tinha dinheiro para mandar vir uma parteira. São coisas que nunca se podem esquecer», confessa orgulhosa pelo filho e pelo neto de 18 anos.
Aos pais de Maria Luísa, outra das moradoras, «dava as pinhas e os rabichos da cortiça, que era com que viviam o ano inteiro». A ela deu-lhe trabalho a arrancar o mato das terras, emprestou-lhe dinheiro quando a filha precisou de levar soro e pagou medicamentos a uma irmã que sofria de uma doença grave. Para a festa de casamento de Maria Antónia contribuiu com o mel e com os chouriços e ainda ofereceu o bolo dos noivos, que na altura «eracoisa de ricos».
Eulália Canelas trabalhou em casa dos Lopes Aleixo durante seis anos e recorda-se de baterem à porta pessoas a pedir desde receitas médicas, a mantas e lenha e de o comendador atender a muitos dos pedidos. Chegavam a procurá-lo por não terem como pagar os estudos e ele dizia: «Acaba o curso que eu pago».
Também «mandava avios a quem precisava e emprestava dinheiro aos rapazes para que se casassem quando traziam as raparigas grávidas».
O casamento era, aliás, indispensável naquela época. Maria Luísa recorda que para poderem concorrer às casas do bairro social, os casais «tinham que ter bom comportamento moral e civil e serem casados pela Igreja». Mas os tempos são outros e o que lá vai, lá vai, incluindo os defeitos do comendador, «que também os tinha». A verdade é que praticamente todo o bairro concordou com a iniciativa da comissão de moradores de recordar Lopes Aleixo, mesmo reconhecendo que entre aquele passado e o presente muita água passou debaixo das pontes. «A política fica à porta. Agora está tudo em paz e harmonia», clarifica Eulália Canelas.
Agitados foram os anos a seguir ao 25 de Abril, já António Lopes Aleixo não era vivo. As suas propriedades foram ocupadas «por gente de fora, mas também por pessoas a quem ele tinha emprestado dinheiro para as vinhas», recorda Maria Luísa, que testemunhou a desocupação «do filho mais velho do comendador e da mulher, na altura, grávida». Tal como agora, os habitantes de Cabeção deram mostras do apreço pelo antigo lavrador. «Foi graças às assinaturas do povo que os filhos recuperaram as terras». A estima mantém-se, livre de complexos saudosistas.
Este artigo saiu no Expresso em 10/8/2002. |